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Este blogue é um espaço onde tento conjugar a divulgação do meu trabalho de pintura, através das publicações abertas a comentários, e a publicação de outras matérias na coluna lateral e nesta zona, ao alto da coluna principal.


Os assunto e conteúdos que aqui coloco, em paralelo com a pintura que faço, relacionam-se com as minhas opiniões e opções no exercício do acto de viver. Isso, como tudo, resulta de um compromisso entre livre-arbítrio e determinismo, de racionalismo e sensibilidade, de consciência e intuição, de ponderação e impulso.


Não será possível resumir neste espaço o meu pensamento acerca do mundo actual e do que é indispensável alterar para viabilizar um futuro, em que a nossa espécie assegure a sobrevivência da vida como a conhecemos, de uma forma que respeite a sua organização estrutural. Penso que em qualquer de nós tudo existe. A capacidade para fazer num sentido e no seu oposto. Cada um tem os seus conceitos de bem e de mal, se bem que há tendências mais universais. Para mim basta-me considerar por bem o que estabiliza, harmoniza, promove prazer e bem-estar, respeita e aceita e se constrói permanentemente na consciência da pertença a uma unidade global. A consciência do mal estará no extremo oposto. É uma forma simplista e não mais que um recurso para estabelecermos regras de conduta, para assumirmos a responsabilidade que os nossos recursos desmedidos para interferir no meio em que vivemos, nos confere.


A falta de um sistema político adequado para a gestão das sociedades que promova um papel social, de cada um, devidamente equilibrado no deve e haver, estabelecido no respeito sagrado pela dignidade de cada pessoa, é um sintoma de um mal que se avalia pelo exame da nossa História Universal. Se avaliarmos os registos da história política, das artes e do pensamento, verificamos que há um padrão de comportamento humano que é inerente à sua condição e que não tem mudado ao longo dos milénios. Depois vemos que tudo se repete, em ciclos. E verificamos que a velocidade das transformações evolui exponencialmente, porque tudo é um pulsar. A explosões sucedem-se retracções.


Neste momento não sabemos em que ponto estamos, mas sabemos que se não alterarmos o nosso comportamento, estaremos a construir uma destruição num apocalipse de dor e sofrimento em que a nossa arrogante inteligência fará a afirmação de ser a mais negra estupidez do Universo conhecido.



ASSINE PELA ABOLIÇÃO GLOBAL DA PENA DE MORTE

BASTA A POSSIBILIDADE DE INOCENTES SEREM CONDENADOS À MORTE PARA A ABOLIÇÃO SER IMPERATIVA


No passado dia 10 de Outubro foi o Dia Mundial pela Abolição da Pena de Morte. Duas semanas antes, a 25 de Setembro, o Brasil tinha-se tornado o 72º país a abolir a Pena de Morte do seu sistema penal, sem possibilidade de retrocesso.


Este é, ainda hoje, um tema polémico. Confrontados com a violência que espreita a esquina do quotidiano da pessoa mais serena e pacífica, e com a consciência que a divulgação mediática que existe dessa mesma violência muitos são os que apesar da sua boa personalidade cívica e humana, hesitam ou, nem por isso, antes apoiam a pena de morte como solução para conter e castigar os crimes que atingem inocentes.


Pessoalmente, expresso aqui uma opinião que assume uma série de implicações, pelo que não quero fazê-lo, sem fundamentar a minha posição e assumir a consciência desses fundamentos. Estou consciente do privilégio que representa nunca ter sido alvo de episódios de relevante violência. Consigo, talvez por defeito, mas quanto baste para entender o estado de espírito de quem sofreu sérias circunstâncias
de ofensas pesadas à sua integridade física, atentados ou até assassínios dos que lhe são próximos.Há casos e circunstâncias em que os ofendidos poderão encontrar argumentações que sustentem uma execução num caso específico. Há até casos de assassinos que querem morrer. Há muitos que até se suicidam no corredor da morte, seja pela incapacidade de lidar com a culpa ou com a desumanidade da tortura da espera. No entanto, há uma coisa de que todos temos de estar conscientes. Num determinado sistema penal há ou não há pena de morte. E temos de estar conscientes de uma outra coisa. Nenhuma lei que exista em qualquer país, para qualquer efeito, tem garantia de ser sempre exemplarmente aplicada. Os casos são julgados por pessoas e por elas são aplicadas as penas. As pessoas detêm poderes e têm interesses que, por vezes são difíceis de identificar até para os próprios porque estão nas esferas obscuras das ideologias e das afectações de carácter e que são determinantes nas decisões. Pesa, para mais, que a maioria dos locais onde a pena de morte ainda é aplicada, e onde é necessário que seja abolida, são aqueles onde os atropelos à isenta aplicação da lei são mais fáceis.


Não é defensável que estejamos vulneráveis à violência social. Sabemos que há seres humanos cuja monstruosidade de comportamento alimenta as vendas e audiências dos meios de comunicação com a evidência de que não terão a mínima viabilidade de recuperação. No entanto, defendo que as sociedades terão de encontrar métodos de prevenção e de regulação destes fenómenos que estão completamente associados à própria natureza humana e à forma como se gerem políticamente as sociedades. Acredito que um eficaz combate à miséria existencial e um sistema de educação humano e adequado resolverá uma grande parte do problema. A aplicação rigorosa dos direitos humanos, já reconhecidos, outra parte. Só que o que poderia ser fácil, não o é, e esse estado, demorará a ser atingido, se algum dia o for à escala global. Até lá, os crimes e as agressões continuarão. E a necessidade de lidar com eles, sem passar pela eliminação física do criminoso. Porque basta a possibilidade, em aberto, de um inocente condenado para inviabilizar que se possa manter uma lei que o permita. Nos Estados Unidos, onde ainda existe, como sabem, pena de morte nalguns estados, já se tem descoberto inocência, e conduzido à libertação de presos, numa espera que chega a durar 20 anos.


Perante estes factos só é possível defender a abolição da pena de morte, sem excepção do local geográfico, da natureza dos crimes, das características do criminoso ou do método de execução utilizado. É um princípio e um conceito a eliminar para atingir um mundo melhor.


Como nota final, registo o facto agradável de Portugal ter sido a vanguarda da abolição da Pena de Morte. Foi introduzida pela Reforma Penal de 1867, tornando-nos no primeiro país a aprovar uma lei desta natureza. Notável, para um país, em que em 1476, os registos reais dão conta daquilo a que chamam "uma lei mais humana" referente à decisão de D.Afonso V de proferir uma sentença em que só o marido podia matar a mulher culpada de crime de fugir ao marido, pecando-lhe na lei do casamento.

ATENÇÃO - ESTE VÍDEO MOSTRA A CRUELDADE HUMANA PARA COM OS ANIMAIS

Nos dias de hoje, só a ganância do lucro, o desprezo pelo sofrimento alheio e a crueldade para com as outras formas de vida, explicam as experiências com animais em laboratório, para fins médicos, cosméticos ou outros. No total alheamento pela dignidade da vida e pelo seu carácter sagrado, animais dotados de consciência e sensibilidade elevadas são torturados com objectivos militares e científicos, por vezes durante anos a fio, passando existências inclassificáveis. A engenharia genética que tem sido, tantas vezes, usada em más direcções, providencia afinal os meios que permitem avançar a medicina sem o uso deste tipo de práticas, mas elas continuam a ser usadas.
Impõe-se que todos os que temos consciência do mal no exercício destas práticas cruéis e que com elas não queremos pactuar, nos informemos, de quais as empresas que comercializam produtos ou medicamentos resultantes destas experiências. Felizmente o mercado actual dá alternativas para se evitar um consumo que suporte essas actividades.

NÃO À SENTENÇA DE MORTE - Não deixe o seu cão velho na rua, nas noites frias!

Chained Dogs

CLIQUE NA IMAGEM ACIMA E VISITE O SITE DA PEOPLE FOR ETHIC TREATMENT OF ANIMALS

Se tiver dificuldades com a língua inglesa faça uso da ferramenta de tradução do Google. Não é perfeita, mas permite-lhe ter uma ideia muito aproximada dos conteúdos.

MOSTRA VIRTUAL DE PINTURA

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

ELE E A MÃE

Todos os Bebés são divinos. O seu estado sem a mácula da consciência do Bem e do Mal é uma das essências do Sagrado Mistério. Nem todas as Mães são igualmente divinas porque por elas já se estende essa consciência. Mas todas, sem excepção, onde  brilha o amor que alimenta o acto de gerar e a inevitável angústia generosa de entregar ao Mundo o Filho que lhes sai desse Santo Graal que é o seu útero, estão nos momentos do exercício desse Amor pleno, em estado de Graça. Em comunhão com o Mistério. Em estado puro, que é o mais raro da existência contaminada que vivemos.

Todos nós (eu que escrevo e vocês que lêem) já assim fomos. Bebés. Puros, vivemos antes da estória do pecado original, entenda-o cada um como quiser. Tínhamos a capacidade de olhar o Mundo à nossa volta com um olhar limpo e disponível. Depois fomos inevitavelmente dados ao mundo. Iniciámos o nosso caminho. Fomos “educados”, integrados e “cultivados”.

Se por ventura, na voragem da passagem do tempo e da vida, não perdemos a capacidade de nos interrogarmos, o desejo de nos conhecermos e a capacidade de falar com o Mistério, de rezar sem fórmulas, então damos connosco com a vida consumida e à procura da mesma pureza inicial do tempo de bebés.

Dessa capacidade de olhar o horizonte ou o objecto mais perto de nós da mesma forma, sem o racionalizar, julgar ou criticar. Sem lhe chamar um nome sequer. Apenas vivendo a sua essência. O Nirvana a que aspiram velhos monges após vidas de meditação nos mais altos cumes do Mundo. Afinal o que está alcance de qualquer gato do telhado quando, sem qualquer interesse específico, olha para lá de tudo o que vê.

Quadro Madona Total Web
Olhando o caminho
Pastel seco e acrílico sobre papel
40x60cm – 2009

Olho o caminho à minha frente
assim como uma linha de caminho de ferro
mas sem ferro nem linha
só de terra, de terra quente,
quente de ardida num fogo eterno
a que estou prometida
para a vida, a tua e a minha,
meu Filho, nessa linha que oscila
entre o Céu e o Inferno.

Quadro Madona Detalhe 2 Web

Desde que iniciei “O canto da Fénix” o espaço que decorreu desde o último post até agora foi o mais longo período de silêncio que aconteceu neste blogue. A conjugação de diversos acontecimentos, previstos uns, outros não, criaram um contexto de ocupação de tempo e de desgaste de disponibilidade mental e de energia estrutural que não me deixaram possibilidades de preparar materiais para por cá publicar. Como alguns terão notado, mesmo os tempos para responder aos comentários do último post, foram fugidios e esparsos, pelo que ao contrário do habitual foram sendo respondidos ao longo do tempo em vez de serem de uma só vez.

Pelo meio, também só pintei esta Mãe que oferece o seu filho à Vida, ao Mistério, à voragem dos Desígnios da humanidade tortuosa e torturada. Para todos os que assim quiserem será uma Madona com um Cristo bebé. Para os que preferirem será a Sagrada Imagem da Maternidade comum dando o seu Filho, tão incógnito e concreto como qualquer de nós e dos nossos filhos ao Navio em que todos navegamos no mar do desconhecido.
Quadro Madona Detalhe 1 Web

domingo, 18 de outubro de 2009

RETRATO DO PINTOR ENQUANTO LOBO CONTEMPLATIVO

Os tempos que correm são feitos de aço. Duros.

Este pintor precisa de encontrar engenho e arte (não arte e manha) para transformar as suas criações em pão.

Essa é uma alquimia complexa.

Este pintor vai ensaiar uma fórmula em que entrarão retratos de animais e de pessoas. A seu tempo darei a equação completa. Direi como penso retratar os companheiros de quatros patas que os seus amigos humanos estimarem o suficiente para quererem esse registo. Com o rigor que tenho apresentado nas pinturas que aqui já publiquei.

Por outro lado, também haverá espaço para o retrato dos companheiros humanos dos senhores de quatro patas. Começo por apresentar aqui, hoje, um retrato de um amigo humano de um grupo de senhores e senhoras quadrúpedes. Com este, por ser uma pessoa que conheço bem, pude dar-me ao luxo de fazer uma maldade. De o pintar com má cara. Se calhar, afinal, com a cara dele…enquanto lobo. São dias, ou nem por isso. Prometo que em relação a outros modelos, respeitarei o seu melhor ângulo, excepto se quiserem a sua faceta feroz…

AutoR totalweb
O Pintor enquanto lobo
Pastel seco sobre papel negro
50x65cm – 2009


.
.


Tracei o espaço em guerras
Nesta estiva de viver
As quimeras foram ceifadas
Das searas destas terras
Onde eu, sem saber
Espalhara sementes sagradas.
.

Andei em círculos tortos
Contra tempos e marés
Esgrimi cruzes, fiz cruzadas
Para perceber as estradas
Que abri com os meus pés
Num solo de sonhos mortos.
.

Num tempo que já vivi
o rio Granico atravessei
com o Alexandre maior
Aquiles me chamei
no dia em que destruí
a maldade de Heitor.
.

Fui António no deserto
no Sara da pele escura
Fui fatal conquistador
Por amor escolhi a dor
Fui gladiador sem rede
sem espada ou armadura
Tive a morte sempre perto.
.

No tempo em revisão
Aquele que vai e passa
É um fantasma de solidão
a ave iluminada
cuja coreografia traça
por sobre a multidão
a esperança tão desejada.
.

Mas na manhã renascida
que é aurora boreal
o silêncio corta e recorta
uma Alma Mater acontecida
No vasto espaço ritual
Da esperança que de morta
Se abre como uma flor
Ao suave calor,
Da dor ou do amor
Do grande Mapa Astral.
.
.

AutoR detalheWeb

Em nota de rodapé, e a propósito do Ser, da sua insustentável leveza (olá, Milan!…), dos tempos de aço e das lutas de cada dia, pelo pão nosso, aqui deixo para vocês um pequeno excerto de apenas um minuto e pouco, do que considero ser um dos mais importantes momentos, do filme que mais me marcou de um cineasta fundamental: Ingmar Bergman.

O Sétimo Selo
“Quando o cordeiro abriu o sétimo selo, fez-se silêncio no céu durante meia hora”
                                                                                        Livro das Revelações

Um grande filme sobre o silêncio de Deus.





 Antonius Block (Max von Sydow) é um cavaleiro medieval, um cruzado.

Bergman inicialmente escreveu uma peça chamada “A pintura sobre madeira” no ano em que nasci, 1954, e que deu lugar ao argumento do filme que estreou em 1956.

Diálogo deste excerto:

Antonius Block:Quem és tu?
Morte: Sou a Morte!
Antonius Block: Vens-me buscar?
Morte: Caminhei ao teu lado durante muito tempo.
Antonius Block: Eu sei…
Morte: Estás preparado?
Antonius Block: O meu corpo está, eu não. Espera um momento.
Morte: Vocês dizem todos o mesmo, mas eu não dou importância.
Antonius Block: Jogas Xadez, não é verdade?
Morte: Como sabes?
Antonius Block: Oh… Tenho visto em pinturas e ouvido em canções.
Morte: Sim, sou um habilidoso jogador de xadrez.
Antonius Block: Bem, não serás mais habilidoso do que eu.
Morte: Porque queres jogar xadrez comigo? Esse é o meu negócio.
Antonius Block: Tens razão. A condição é que eu viva enquanto resistir. No caso de eu fazer cheque-mate, libertas-me.
Ficas com as peças pretas.
Morte: É o que melhor se adapta às circunstâncias, não é verdade?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A PROPÓSITO DE UMA IGUANA



A iguana é um esplêndido réptil, dotado de uma personalidade tranquila e sociável.
Pelo fascínio que sempre exerceu sobre mim a estética magnífica dos lagartos e afins, decidi nesta série de pasteis sobre animais, incluir uma iguana.

À medida que ia executando a pintura iam ocorrendo em mim evocações e recordações curiosas, a partir das quais decidi estruturar o conteúdo desta publicação, para além da mostra da pintura.

Como nota introdutória apenas quero manifestar o meu repúdio pelo facto de termos transformado a iguana em animal de estimação. Este réptil acaba por ser vítima do seu carácter amável e da ganância e egoísmo humanos. Por ser possível o seu convívio, sem o risco de agressões e porque a ganância comercial dos agentes envolvidos no seu comércio, assim como o egoísmo de quem os coloca num ambiente que não é o seu, com exigências de rigor no seu cuidado que raramente é observado, resulta num mal estar do animal, frequentemente privado de liberdade de movimentos, da companhia dos seus iguais e dum ambiente e clima que lhe permita saúde física e mental.

Quando pretendemos partilhar a nossa vida com outras espécies devemos escolher animais cuja vida tenha garantia de qualidade nessa partilha. Cães e gatos são os mais adequados. Para quem dispõe de condições adequadas, cavalos, cabras e ovelhas também podem viver em excelentes condições. No entanto, em ambiente doméstico, resumiria as opções a cães e gatos. Gostaria que acabassem as aves de cativeiro. Bem-vindo seria o fim às gaiolas-prisão. O fim aos aquários-prisão. Peixes nos rios, nos mares e, uma única excepção para os lagos de dimensão considerável. Quanto a cães e gatos, seria bom acabar com o apuramento de raças, com o negócio de criação e promover o estímulo à adopção dos inúmeros animais que vadiam pelas ruas e povoam os canis e gatis, em condições deficientes, quase sempre aguardando destinos cruéis.


Igutotalweb Iguana
Pastel seco sobre papel negro
50x65cm – 2009



Como disse, acima, ao fazer esta pintura vieram-me à memória curiosas lembranças do auto-intitulado Rei Lagarto, o cantor do grupo “The Doors” (assim chamado, por inspiração no título do livro de Aldous Huxley, “The Doors of Perception / As Portas da Percepção”).

Jim Morrison foi um cantor, compositor, poeta, escritor e realizador de cinema de origem norte americana. Foi um dos três Jotas (Jim Morrison, Janis Joplin e Jimmy Hendrix) falecidos, todos com 27 anos, na viragem da década de sessenta para a de setenta do século passado.

Morrison incarnou o espírito da época. Deixou, com os “Doors” um legado marcante na história da música popular. Quem viu o filme “Apocalipse now”, de F.F.Coppola, não esquece o final com a canção “The end”. Quem viu o filme “The Doors”, de Oliver Stone, não esquece o percurso torturado desta figura ímpar.

Os anos sessenta viram uma grande, enorme revolução, fragmentada em muitas revoluções.  Erradicando do Reino Unido e dos Estados Unidos da América, uma alteração de mentalidades que já vinha tomando corpo nos tempos de saída da Segunda Guerra Mundial, portanto na década de cinquenta, explode na década seguinte com um movimento sólido de contracultura. A música popular teve um importante papel de catalisador no movimento de envolvimento da adolescência e juventude na contestação rebelde dos valores socialmente instalados.

A atitude provocante dos cantores de Rock’nRoll de cinquenta deitaram as sementes para o aparecimento dos Beatles, dos Stones, dos Doors, Dylan e outros. Escritores como Jack Kerouac e Allen Ginsberg foram ideólogos que colocaram ideias que alastraram. As filosofias de Herbert Marcuse, por exemplo, foram incorporadas. E foram novas formas de ver a política que levaram ao Maio de 68, em França, e tantas outras manifestações pelo mundo. Novas formas de ver o ser humano, na relação consigo, com os outros e com o meio que mudou a formar de viver. A revolução sexual e a procura de novas fronteiras para a mente provocou convulsões que colocaram em causa os modelos convencionais de família que hoje ainda vivem a agonia de problema mal resolvido.

Foi o tempo dos hippies, utopia que viveu os seus tempos de glória, na relação impossível entre a vivência da comunhão com a Natureza, em plena liberdade de comportamento, e o uso, sem regras, de psicotrópicos que provocavam alterações do estado de consciência que levavam a acções descontroladas.
 
O fim inevitável, deu-se no início da década de setenta, com os crimes da família Manson, o canto do cisne utópico de Woodstock e a morte dos três jovens cantores acima referidos. Com o tempo, os Hippies passaram a Yuppies, de revolucionários românticos abusadores de Lsd e Marijuana, a corretores e empresários abusadores de Anfetaminas e Ecstasy. Voltámos a um mundo em crise de valores, cuja solução se procura urgentemente.

Tudo isto se mistura com a minha vida. Tudo isto influenciou, de forma marcante, as minhas experiências, com a distância e resultante suavidade com que tudo se manifestava, neste Portugal condicionado por uma ditadura que promovia uma censura pouco dada a grandes liberdades. No entanto o movimento estudantil em que vivi os “anos quentes” assimilou muito do espírito “da coisa”.



Ao olhar para a nossa realidade actual, lembrei-me de um livro que, na época, foi importante para mim, e acabei por ir buscar à estante. É um livro de 1971, de Theodore Roszak, de título português “Para uma Contracultura”. Encontrei a passagem de que me recordei, que faz parte do prefácio e que passo a transcrever:


“A resposta, segundo julgo, é que me sinto incapaz de descortinar no termo da vereda que trilhamos com ímpeto tão confiante algo que não seja os dois tristes vagabundos de Samuel Beckett (permitam-me o meu parêntesis para esclarecer tratar-se de personagens da peça “À Espera de Godot”) eternamente à espera, debaixo daquela árvore mirrada, que a vida comece. Excepto que a árvore, segundo penso, não será sequer autêntica, mas uma imitação em plástico. Se calhar os próprios vagabundos serão, afinal, autómatos… embora, é claro, com um amplo esgar programado no rosto:”





Igu detalhe web
 

Para evocar estes tempos decidi trazer aqui um poema de Jim Morrison que ilustra tudo o que aqui foi escrito. Nunca lhe conheci uma versão portuguesa, pelo que me lancei à tarefa de o traduzir, trabalho que executei de ontem para hoje. Não está perfeita esta tradução, mas penso que cumpre a sua razão de ser, alguns pontos acima do medíocre. Quanto baste, para se perceber o que era o génio dessa pessoa que não conseguiu gerir o tempo e as circunstâncias em que tentou articular a sua personalidade com o contexto em que se moveu. Moveu multidões, teve um reconhecimento quase planetário, mas foi preso em palco, por exposição obscena, por mostrar o seu corpo. Claro que a utilização de químicos que lhe alteravam o estado de consciência não era alheia a esses acontecimentos, como  não era ao conteúdo surrealista, psicadélico, mas profundamente inteligente, com que as palavras, à primeira análise, com pouco nexo, retratavam uma verdade de um tempo e de um espaço em conturbada convulsão. Um génio torturado que escreveu :


A CELEBRAÇÃO DO LAGARTO


Leões vagueiam pelas ruas,
Cães no cio, raivosos, babando-se
A fera enjaulada no coração da cidade
O corpo da sua mãe
apodrecendo no solo do verão
ele fugiu da cidade

Ele foi para sul e atravessou a fronteira
Deixando o caos e a desordem
Para trás das costas
Uma manhã ele acordou num hotel verde
com uma criatura estranha a gemer ao seu lado
O suor a escorrer da sua pele brilhante
Estão todos a seguir-me?
A cerimónia está prestes a começar.

Acordem!
Vocês não se podem lembrar onde isto aconteceu
Será que acabou este sonho?
A cobra era de um dourado pálido
Contraída e brilhante
Tínhamos medo de lhe tocar
Os lençóis eram quentes prisões de morte
E ela estava ao meu lado
Velha, não é ela, jovem
O seu cabelo vermelho escuro
A sua pele branca e suave

Agora, corre para o espelho da casa de banho
Olha!
Não posso viver através de cada lento século do seu movimento
Deixei a minha face descair
O fresco azulejo liso
Sente o bom sangue frio e picante
As suaves e sibilantes cobras da chuva

Em tempos tive um joguinho
gostava de rastejar pelo meu cérebro
Julgo que sabem o jogo a que me refiro
É o jogo que se chama “ficar louco”
Agora penso que vocês deviam tentar este joguinho
Fechem os olhos, esqueçam o vosso nome
Esqueçam o mundo, esqueçam as pessoas
E levantemos uma nova torre

Este joguinho é divertido
Fecha os olhos porque é impossível de perder
Estou lá,
Vou perder o controlo, vamos a abrir

De volta ao profundo do cérebro
De volta onde nunca há dor
E a chuva cai suavemente na cidade
Sobre as nossas cabeças
E no labirinto dos fluxos
Subterrâneo, a extraterrestre presença calma
dos nervosos habitantes das colinas circundantes
Onde os répteis abundam
Fósseis, grutas, nas alturas ar fresco

Cada casa repete um modelo
As janelas rolaram
Carros bestiais encerrados contra a manhã
Agora dormem
Tapetes silenciosos, espelhos vazios
Sob as camas de casais legítimos há um pó cego
Ferido nos lençóis
E filhas presunçosas
com olhos de sémen nos mamilos
Esperem
vai haver uma carnificina aqui

(Não parem para falar ou olhar à volta
As tuas luvas e o leque estão por terra
Vamos deixar a cidade
Vamos em fuga
E tu és a escolha para vir )

Não tocar na Terra
Não olhar o sol
Não deixar nada por fazer, mas
fugir, fugir, fugir
vamos fugir

Anda querida foge comigo
Vamos fugir
Foge comigo
Foge comigo
Foge comigo
Vamos fugir

A mansão é acolhedora no cimo da colina
Sumptuosos são os quartos e os confortos lá
Os braços das cadeiras luxuosas são vermelhos
Não conhecerás isto se não entrares

O corpo do presidente morto está no carro do motorista
O motor trabalha com cola e alcatrão
Vamos embora, não vamos longe
Para oriente, ao encontro do Czar
Alguns marginais vivem na margem do lago
A filha do sacerdote está apaixonada pela cobra
que vive num poço ao lado da estrada
Acorda, miúda! Já quase chegámos

Sol, sol, sol
Queima, queima, queima
Quase, quase, quase
Lua, lua, lua
Vou-te ter
Dentro em pouco!
Dentro em pouco!
Dentro em pouco!

Que os sinos do carnaval soem
Que a serpente cante
Que tudo aconteça
Nós descemos
Rios e auto-estradas
Viemos
Das florestas e cataratas

Viemos
De Carson e Springfield
Viemos
Fascinados de Phenix
E posso dizer-te
os nomes do Reino
Posso dizer-te
As coisas que já sabes
Ouvindo um punhado de silêncio
Subindo vales na sombra

Eu sou o Rei Lagarto
Posso fazer qualquer coisa
Posso fazer a terra parar no seu movimento
Fiz os carros azuis desaparecer
Por sete anos habitei
No vasto palácio do exílio
Fazendo estranhos jogos
Com as raparigas da ilha

Agora estou de volta
À terra dos justos, dos fortes e dos sábios
Irmãos e irmãs da floresta pálida
Crianças da noite
Quem entre vós vai correr na caçada?
Agora, a Noite chega com a sua legião púrpura
Retirem agora para as vossas tendas e para os vossos sonhos
Amanhã entraremos na minha cidade natal
Quero estar preparado






THE CELEBRATION OF THE LIZZARD


Lions in the street and roaming
Dogs in heat, rabid, foaming
A beast caged in the heart of a city
The body of his mother
Rotting in the summer ground
He fled the town



He went down South and crossed the border
Left the chaos and disorder
Back there over his shoulder
One morning he awoke in a green hotel
With a strange creature groaning beside him
Sweat oozed from its shiny skin
Is everybody in?
The ceremony is about to begin



Wake up!
You can't remember where it was
Had this dream stopped?
The snake was pale gold
Glazed and shrunken
We were afraid to touch it
The sheets were hot dead prisons
And she was beside me
Old, she's not, young
Her dark red hair
Her white soft skin



Now, run to the mirror in the bathroom
Look!
I can't live thru each slow century of her moving
I let my cheek slide down
The cool smooth tile
Feel the good cold stinging blood
The smooth hissing snakes of rain . . .



Once I had, a little game
I liked to crawl back into my brain
I think you know the game I mean
I mean the game called 'go insane'
Now you should try this little game
Just close your eyes forget your name
Forget the world forget the people
And we'll erect a different steeple



This little game is fun to do
Just close your eyes no way to lose
And I'm right there I'm going too
Release control we're breaking thru



Way back deep into the brain
Back where there's never any pain
And the rain falls gently on the town
And over the heads of all of us
And in the labyrinth of streams
Beneath, the quiet unearthly presence of
Nervous hill dwellers in the gentle hills around
Reptiles abounding
Fossils, caves, cool air heights



Each house repeats a mold
Windows rolled
Beast car locked in against morning
All now sleeping
Rugs silent, mirrors vacant
Dust blind under the beds of lawful couples
Wound in sheets
And daughters, smug
With semen eyes in their nipples
Wait
There's been a slaughter here



(Don't stop to speak or look around
Your gloves and fan are on the ground
We're getting out of town
We're going on the run
And you're the one I want to come)



Not to touch the earth
Not to see the sun
Nothing left to do, but
Run, run, run
Let's run



House upon the hill
Moon is lying still
Shadows of the trees
Witnessing the wild breeze


C'mon baby run with me
Let's run
Run with me
Run with me
Run with me
Let's run



The mansion is warm, at the top of the hill
Rich are the rooms and the comforts there
Red are the arms of luxuriant chairs
And you won't know a thing till you get inside


Dead president's corpse in the driver's car
The engine runs on glue and tar
C'mon along, we're not going very far
To the East to meet the Czar
Some outlaws lived by the side of the lake
The minister's daughter's in love with the snake
Who lives in a well by the side of the road
Wake up, girl! We're almost home


Sun, sun, sun
Burn, burn, burn
Soon, soon, soon
Moon, moon, moon
I will get you
Soon!
Soon!
Soon!



Let the carnival bells ring
Let the serpent sing
Let everything
We came down
The rivers and highways
We came down from
Forests and falls



We came down from
Carson and Springfield
We came down from
Phoenix enthralled
And I can tell you
The names of the Kingdom
I can tell you
The things that you know
Listening for a fistful of silence
Climbing valleys into the shade



'I am the Lizard King
I can do anything
I can make the earth stop in its tracks
I made the blue cars go away
For seven years I dwelt
In the loose palace of exile
Playing strange games
With the girls of the island


Now I have come again
To the land of the fair, and the strong, and the wise
Brothers and sisters of the pale forest
O Children of Night
Who among you will run with the hunt?
Now Night arrives with her purple legion
Retire now to your tents and to your dreams
Tomorrow we enter the town of my birth
I want to be ready “




Finalmente, uma oportunidade de ouvir, para que tiver a paciência de carregar os vídeos. Se gostar do primeiro, ouça os outros. Pode seguir o poema na versão em inglês.


Nota: No primeiro vídeo, a introdução, declamada, não tem os dois versos (importantes) em que se lê:


“Is everybody in?
The ceremony is about to begin”


Tenho uma versão antiga, em vinil, em que o poema está declamado integralmente. Se houver interesse darei indicações para encontarrem essa versão.




sábado, 26 de setembro de 2009

AO OLHAR PARA NÓS

Não foi, certamente essa a razão, mas poderia ter sido. O senhor macaco-rhesus ou resu que foi o modelo para a fotografia de base a este retrato, poderia ter olhado para os humanos em frente dele, e em face dos comportamentos exibidos, ter tido esta reacção.



Decidi fazer este retrato para abrir um espaço de reflexão sobre o indíviduo, a sua relação connosco e a forma como dele nos aproveitamos e o exploramos. Com todo o carinho e respeito o incluo nesta galeria de pinturas, para o evocar, sem o perturbar, pese o uso do original que para isso serviu. Sem críticas que não sejam equilibradas pelo apreço ao trabalho, pois que se assim não fosse não tinha havido lugar a esta publicação.




Mac Totalweb
Reso surpreendido
Pastel seco sobre papel negro
50x65cm - 2009




Macaco-rhesus ou reso (Macaca mulatta)
Este macaco é um primata que tem o seu habitat nas florestas da China, Afeganistão e Índia.
Com uma altura média de 50/60 cm, pesa à volta de 13 Kg. É omnívoro e tem uma gestação à volta de seis meses de que resulta uma única cria, muito dependente dos cuidados maternos nos primeiros tempos de crescimento. Vivem em grupos sociais de mais ou menos duas dúzias de indivíduos, de ambos os sexos, e têm uma longevidade até 30 anos. Tem a particularidade de ser um excelente nadador.

Detalhe triste: É uma escolha preferencial para estudos e experiências laboratoriais. Por exemplo, o factor Rh do sangue foi demonstrado, pela primeira vez, num macaco destes.







Mac Detalho dois web




Fiz este retrato, inspirado no conteúdo de um livro da fotógrafa norte-americana Jill Greenberg. Com uma carreira na fotografia de moda encontrou-se, por via da produção de um anúncio, em face de uma macaca para fotografar. Impressionada pela inteligência da modelo e pelas expressões e emoções humanas demonstradas, a fotógrafa decidiu fotografar o animal para além do objectivo do anúncio. Foi o início de um projecto de cinco anos, durante os quais fotografou trinta macacos de diversas espécies.




Página web de Jill Greenberg:





Ver na coluna lateral, no espaço de fotografia, o vídeo dedicado a este trabalho fotográfico e no espaço de leituras a informação relacionada com o livro.



O projecto deu lugar a uma exposição das fotografias numa galeria de Los Angeles. Um dos presentes, realizador de cinema, fez um comentário ao evento, donde extraio a seguinte passagem:


“ fui à exposição porque a foto do convite me atraíu. Tive a surpresa de me cruzar com muitos conhecidos, que não via há muitos anos. Conforme entravam no espaço da exposição, com um copo de vinho tinto na mão, fui invadido por um sentimento de mal-estar e opressão.  Essas pessoas pareciam, como sempre, simpáticas e inteligentes, mas  lembravam-me um tipo triste e bizarro que eu conhecera: eu próprio. Era o melhor estado de espírito para observar as fotografias de macacos de Jill.
…as fotografias fizeram-se no espelho da minha própria confusão. Há um nível em que somos visivelmente homens, e outro em que a nossa evolução na vida e a nossa caminhada em direcção à morte contrariam todas as nossas tentativas para sermos seres humanos decentes.
Estas fotografias têm um sentido e são desprovidas. São sublimes e ridículas. Revelam exploração dos modelos e respeito. São cómicas e tristes. Agradam-me muito.”
                                                                                                                                                                                                                                                 Paul Weitz






Mac Detalho um web





“As expressões de Katie (a primeira macaca fotografada, por acaso, para o anúncio) eram muito humanas e a sua inteligência saltava aos olhos. Percebi que tinha encontrado um novo tema, ideal para um estudo sociológico. Depois de começar este trabalho, em Outubro de 2001, logo após os acontecimentos trágicos de 11 de Setembro, descobri em mim uma consciência sociopolítica. A interpretação das atitudes destes animais pode-se aproximar à do comportamento dos seus primos próximos.”
                                                                                                                                                                                                                                            Jill Greenberg





Com as minhas lembranças e evocações das leituras de Desmond Morris, no final da minha adolescência, deixo mais uma homenagem sentida a estes seres que respeito afectuosamente.



sexta-feira, 18 de setembro de 2009

AMARELO – O PEQUENO TIGRE



Mantendo-se as circunstâncias que condicionam a minha actividade de pintura, continuo com os meus “exercícios” a pastel sobre papel. Tenho um objectivo definido, que a seu tempo revelarei, ao fazer a presente série de animais domésticos. No entanto, as pinturas que tenho apresentado nas últimas semanas, não são representativas do meu trabalho nesta área, sobretudo a nível conceptual. A quem o quiser conhecer convido a visitar os arquivos de Junho e Julho deste blogue.

Satisfazendo as expectativas dos visitantes regulares, segue mais um membro de quatro patas desta nossa família. O gato Amarelo.



Amarelo total web
Amarelo
Pastel seco sobre papel negro
50x65cm – 2009



O Amarelo é um pequeno tigre. Tem a envergadura e o peso (mais de 7Kg) do cão Tintin. Foi o último elemento a entrar para o nosso lar.



Entrou por iniciativa própria. Há cerca de dois anos, durante um período, usei como atelier de pintura um armazém de alfaias agrícolas num espaço contíguo à casa que habitamos. Como eu gostava de pintar com o grande portão do armazém completamente aberto para beneficiar da luz natural, o nosso amigo começou a visitar-me para observar o “ambiente” e avaliar o potencial de conveniência. Ou talvez, simplesmente, por pura curiosidade para justificar a fama dos gatos. Ora o escriba destas linhas, em face deste visitante, que vinha por momentos “colorir” o espaço em que as cores se misturavam para dar vida ao conteúdo das janelas de tela, cumprimentava-o amistosamente, de início. Em dada altura, suspeitando da sua fome, dei-lhe um pouco de comida da gata Mila. E assim começou uma relação afectuosa com um felino de comportamento muito decidido e firme no gesto. Quer dizer no uso das unhas e dos dentes em qualquer circunstância em que o seu livre-arbitrio ou dignidade sejam, no seu recto entender, postos em causa. De facto, se por vezes, faz algumas cedências neste aspecto, reconheço que só a mim me dá o privilégio. É, nesse aspecto, completamente diferente da gata Mila. Senhor do seu nariz com os humanos conhecidos, esquivo e agressivo com os desconhecidos e brigão com os outros gatos, protagonizando escaramuças patentes nalgumas cicatrizes que exibe como medalhas, é de facto um pequeno tigre.



Apesar de ser, segundo opinião veterinária, um animal ainda jovem, já passou por um episódio grave de saúde. Já o deixámos internado, quase sem esperança de o reencontrarmos vivo no dia seguinte. Foi uma retenção urinária, que já lhe tinha elevado os níveis de ureia ao ponto de lhe ameaçar as funções vitais. Felizmente sobreviveu, mas desde aí, só pode comer rações específicas para gatos com deficiência renal, que, pelos vistos, abundam.



De qualquer forma, quero realçar, que é um animal que, sem prejuízo, do seu porte altivo e gesto rápido na correcção de alguma ofensa, está sempre disponível para um afecto e demonstra, para comigo, uma amizade especial.



Realço o seguinte episódio. No tal armazém, que como disse está implantado num terreno rural, abundam em dias de temperatura elevada ou moderada pequenas lagartixas, que satisfazem, muito competentemente, os seus instintos de caçador. Instintos esses que já tem provado possuir com alguma competência técnica, dado conseguir até apanhar pequenos pássaros em voo. Ora como eu tenho o instinto oposto, ou seja de preservar a vida a todo o custo, faço sempre que posso, a grande contrariedade de lhe retirar as presas enquanto estão vivas, devolvendo-as aos seus espaços. Como já disse, a mim ele ainda vai consentindo esses desaforos. Ora nos tempos do armazém, eu fiz isso diversas vezes com as lagartixas. Então o nosso amigo amarelo, que pernoitava (e ainda hoje pernoita) no armazém brindava-me frequentemente, com lagartixas mortas junto do meu banco de pintura, pela manhã. Por vezes se as caçava enquanto eu estava distraído a pintar ia levá-las para o pé de mim. Do seu ponto de vista, quando eu lhas retirava, queria-as para mim, logo ele vinha dá-las de presente.




Amarelo detalhe web


“Mago respirou fundo. Abriu o nariz e encheu o peito de ar ou de luar, não podia saber ao certo, porque a noite era uma mistura de brisa e claridade. Mas fosse de frescura ou de luz a onda que bebera dum trago, de tal modo o inundou, que em todo o corpo lhe correu logo um frémito de vida nova. Esticou-se então por inteiro, firmado nas quatro patas, arqueou o lombo, e deixou-se ficar assim alguns instantes, só músculos, tendões e nervos, com os ossos a ranger de cabo a rabo. Arre que não podia mais! Aquele mormaço da sala dava cabo dele.”
                                                                                                               Miguel Torga, in “Os Bichos”




O Mago era um gato que trocara a dignidade do exercício felino, livre e vadio pelas mordomias da vida de animal de estimação.


Pois, penso eu, com a natural satisfação que este Amarelo tem o melhor dos dois mundos. Todos os dias uma dose de exploração vadia à sua vontade, comida sempre certa, veterinário quando precisa, desinfestação de parasitas e um tecto para pernoitar. Mais, um enorme armazém por sua conta, onde conhece todos os cantos, e tem até um abastecimento regular de lagartixas e um ratito do campo uma vez por outra. Dos nossos bichos o que melhor se assume como uma fera doméstica.









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