Gólgota (do Lat. Golgotha) substantivo masculino - lugar de suplício; sofrimento atroz; calvário
Origem: Dicionário da Língua Portuguesa - Texto Editores
Calvário (em aramaico Gólgota) é o nome dado à colina que na época de Cristo ficava fora da cidade de Jerusalém, onde Jesus foi crucificado. Calvaria em latim, Κρανιου Τοπος (Kraniou Topos) em grego e Gûlgaltâ em transliteração do aramaico. O termo significa "caveira", referindo-se a uma colina ou platô que contém uma pilha de crânios ou a um acidente geográfico que se assemelha a um crânio.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Gólgota
Óleo sobre tela - 138 x 223 - 2009
Num momento, o lugar da caveira é o espaço do Universo todo, e, para cada ser, o é em dado momento da existência, aquele em que o tempo deixa de passar e ter significado, em que a matéria não tem expressão e o nada é tudo.
O homem é filho da mulher e do homem, de Deus e dos imensos Deuses que fez à sua imagem e às imagens que o mistério lhe concedeu para ver. As mulheres são todas amazonas, filhas de Diana, Afrodite e Psique, trindade conflituosa fecundada pelo pó das estrelas que criaram. Encontraram-se num momento, à vez, sempre na consciência dos outros, como se juntos estivessem, na multidão humana, colmeia una de um único centro, naquele lugar em que as pedras brotavam das mãos do anjo sombrio, que se sentava a Norte, e a música soluçava na garganta da luz branca, deitada a sul, espalhando-se pelas flores de carne.
E todos experimentaram o medo e a perplexidade. E disseram:
-Perdoa-me, porque não sabia o que fazia!
E após um instante eterno:
-Não me abandones!
O balido do cordeiro misturou-se com o sopro de um bater de asas no céu, porque ele e a ave foram opostos, mas nascidos da mesma raiz. Transformaram-se mutuamente e equilibraram-se, em harmonia.
E o círculo fechou-se, rigorosamente, metade luz, metade abismo, irregularmente.
__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
CONTINUANDO A FALAR SOBRE ARTE
Após a primeira troca de impressões (que pode ser consultada acedendo à página de comentários do "post" anterior) já é possível orientar mais objectivamente a exposição de ideias, aqui.
De uma forma geral, sobressai uma opinião de que a Arte é algo que não sendo definível de modo consensual, deve ser aceite em todas as formas e manifestações, com um grau de tolerância que permita a serena convivência entre todos os artistas e as suas obras.
Asseguro-vos que ninguém estaria mais de acordo com este ponto de vista do que eu, que defendo que a maior parte dos problemas do mundo em que vivemos se devem à nossa falta de respeito pelo próximo e do exercício da tolerância, independentemente das características de cada um e das suas opções, devendo esta prática ser alargada a todas as outras espécies, devendo estas ser respeitadas na sua dignidade, que lhes é conferida pelo facto de compartilharem connosco uma origem universal comum, ancorada no mesmo mistério.
Sucede, que no que respeita à Arte, a falta de tomada de posição, de escolha e discriminação, leva a uma ilusão de convívio de todas as correntes, porque a passividade , apenas permite uma hierarquia perversa de géneros e expressões que serve interesses específicos do mercado. Na verdade, valorizando, todas as propostas que se apresentam, de forma igual, fazendo depender a sua legitimação, apenas de factores como a pretenção do artista e a aceitação pelos diversos agentes, criamos um palco em que os produtos de maior facilidade de produção, ora porque exigem menos talento criativo, mais vulgar técnica de execução, menos investigação e dedicação, proliferarão como erva daninha abafando a colheita. Assim os trabalhos que se inserem dentro de um conceito mais exigente tendem a desaparecer. Pela banalização, caíremos, tarde ou cedo, na desvalorização total da actividade, na sua falta de sentido.
No que respeita à pintura, não penso, evidentemente, que tudo o que foi feito durante o século XX e neste princípio do século XXI, que não seja figurativo tradicional, não deva ser valorizado como arte. Pelo contrário, muitas pessoas com talento, fizeram coisas interessantes. Quando digo que o início do declínio se deu com o impressionismo, não o faço com uma posição de rejeição dirigida, específicamente, aos trabalhos dessa escola. Não culpo Cézanne, Monet ou Renoir. Pelo contrário, nas suas novas abordagens, fizeram trabalhos muito interessantes. A questão teve a ver com o caminho que abriu. Isso foi o resultado da forma como a nova forma de expressão foi tratada pelos filósofos formalistas como Clive Bell, expressionistas como R.G. Collingwood e Benedetto Croce e outros na imposição elitista de um conceito de "Arte". Por exemplo, a filosofia formalista de Bell, para elevar Cézanne ao nível dos maiores clássicos, era de que apenas havia um elemento comum a toda as pinturas merecedoras, que lhe conferiam essa condição excepcional de ser uma obra de arte, a que chamou "a forma significante". Esta "forma significante" é uma conjugação de formas, linhas e cores susceptível de provocar uma emoção estética aos seres sensíveis, dotados da capacidade de a sentir. Ou seja a "forma significante" não era definível, mas passível de ser sentida, intuída, colocando o poder de determinar o valor do que passava a ser a arte de vanguarda, nas mão de uma elite de sensíveis iluminados, que se articulavam com um mercado de galerias, leiloeiras, escolas e museus. Os filósofos expressionistas ainda tentaram definir a qualidade comum do objecto artístico, encontrando um relação entre "Arte" e ofício. No entanto, pelo meio do século passado, já Wittgenstein e outros filósofos, concluíam que tentar definir "Arte" era um erro. A "Arte" não pode ser definida isolando as suas qualidades essenciais. O máximo que se poderia tentar fazer seria encontrar padrões complexos de semelhanças sobrepostas nos objectos de "Arte".
Essa incapacidade de encontrar uma definição para "Arte" chegou aos dias de hoje. Umberto Eco e Warburton assumem esse facto, mas por outro lado reconhecem uma necessidade de se fazer escolhas. De encontrar parâmetros para organizar um mundo caótico em que as correntes de expressão artística são antropófagas e o mundo dos interesses financeiros conferem força às que mais interessam por via de teias complexas, de modo a que ocupem o topo da pirâmide. Haverá assim uma necessidade, até uma responsabilidade de todos os que estão envolvidos no campo das "Artes", de expressar o seu ponto de vista, fundamentado, numa troca de ideias democrática, honesta, transparente e convicta. Ninguém terá o direito de impor uma ideia ou posição, porque já se encontra instalado e/ou muito comodamente "porque sim". Assim na soma das manifestações de ideias, paralelas à apresentação dos trabalhos, resultantes nalguns casos, de reflexões e auto-crítica, que até aqui nunca terá sucedido, poderão todos os observadores interessados, começar a definir algumas ideias. Provavelmente isto nunca sucederá, mas os resultados serão lamentáveis, e serão visíveis no tempo desta geração ou mais tarde. A "Arte" encontra-se em perigo como o ar e os mares deste planeta. Aliás é uma questão global, de origem comum. Ganância e cegueira de gestão.
Do meu ponto de vista é necessária esta clarificação porque, nas circunstâncias presentes, e naquelas para que, cada vez mais, caminhamos, necessitamos de meios de determinar factores importantes, por uma via lógica e objectiva, que não seja um exercício de poder aleatório e ilegítimo apenas dependente de estruturas já existentes, decorrentes de poderes completamente alheios à "Arte". Portanto, é necessário ter princípios de avaliação, claros e transparentes, que permitam atribuir uma hierarquia de valores aos objectos de "Arte". É necessário enquadrar a atenção que lhes damos, de acordo com o seu significado para a humanidade, num sentido que lhes enquadre valor de registo histórico, social, filosófico, etc. Por outro lado é necessário que qualquer olhar que se tenha sobre a "Arte" de hoje, nos permita enquadrar a razão porque aquilo a que, desde sempre, se tem chamado "Arte", é "Arte". Para que não se venha a concluir que só agora temos verdadeira "Arte". E, se assim não é, como se confronta uma com a outra, tão diferentes são, tanto uma põe a outra em causa. Na verdade, necessitamos de linhas orientadoras para decidir com rigor e transparência, em casos complexos, que hoje, são a larga maioria.
Para uma pausa, para olhar um pouco, coloco uma imagem do painel central, de um tríptico que acabei de pintar no princípio deste ano. Na próxima edição colocarei a imagem completa do trabalho assim como os dois painéis que faltam, em destaque.
De seguida farei uma primeira abordagem ao que penso fazer sentido serem considerações acerca dos objectos de arte, que a serem aplicadas, lhes confeririam qualidades de dignidade conceptual, profundidade de conteúdo e permitiriam restaurar alguma aura espiritual, no sentido laico.

"Tempo de Passagem"
tríptico em óleo sobre tela
100x350cm (tela) - 122x394cm ( com moldura)
2009
NOTA FINAL:
O facto de pensar que o conceito de "Arte" deveria enquadrar objectos com determinado tipo de características, não significa que não goste de outros objectos, que não estejam nessas condições. Pelo contrário, gosto muito de olhar determinadas pinturas que não considero dentro desse conceito, mas me provocam uma emoção estética. Se adoptasse um princípio formalista tudo estaria bem. Mas essas peças, que até podem ter valor decorativo, para além do prazer de as olhar, só me poderão dar uma base de reflexão, um conteúdo de comunicação, na base da minha imaginação ou na aceitação de qualquer leitura subjectiva que me é dada para aceitar. Quando admiro uma paisagem com elementos que a Natureza, por acaso ou não, reuniu com uma harmonia que, aos meus olhos, resulta numa emoção estética posso comover-me. Isso não torna a paisagem numa obra de "Arte". Costumamos chamar-lhe isso, mas apenas no sentido figurado. Isto pode acontecer com resultados de acidentes químicos. Um qualquer líquido que cai sobre um tecido pode fazer manchas belas, a chuva a cair numa roseira, sei lá....
Para mim, uma obra de "Arte" tem de ser feita pelo ser humano, mas o facto de ser feita por ele não é condição que baste para a elevar a essa condição. A simples reprodução de um objecto da natureza, se não tiver nada acrescentado não basta para elevar o trabalho por mais figurativo e técnicamente perfeito a obra de valor. Tem de se "ler" qualquer coisa de interessante na observação desse objecto da Natureza. Costumo dizer que, para mim, uma obra de "Arte" é tanto mais valiosa, quanto a capacidade que tem de me alterar na sua observação. Guardo de memória, objectos, que mudaram a minha percepção do mundo e da vida: quadros, livros, filmes, músicas.....
De alguma maneira, penso, que a arte mais poderosa, na sua comunicação, que melhores resultados tem sobre o seu apreciador é aquela que é estruturada na recreação da realidade dando-nos uma visão que a sensibilidade específica do artista tem acerca de assuntos intemporais como as emoções e comportamentos extremos do ser humano, entre a beleza e a fealdade, a glória e a tragédia. O medo, os limites do conhecimento humano, ódio, o amor, a guerra, os dramas psicológicos, tratados com sensibilidade técnica, independentemente das opções formais, desde que legíveis e reconhecíveis, são bons temas para a "Arte".
Quanto às "obras" do "expressionismo abstracto", da "arte conceptual" baseada em "ready-made" e outras expressões vanguardistas, limito-me a imaginar a dificuldade que os futuros historiadores da Arte terão em enquadrá-las de uma forma digna para o percurso da expressão humana no seu aspecto mais espiritual e sofisticado. Onde se conseguirá encontrar alguma transcendência?!
_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
Um olhar sobre a tradição não significa querer voltar ao passado, mas apenas vontade de evoluir sempre na procura do Santo Graal. A perfeição não é atingível, mas procura-se com os olhos nas estrelas do firmamento, com rumo.
___________________________________________________________________________________________________________________________________________________________