Pietá (detalhe)
Pastel sobre papel - 40x60cm (imagem total) - 2009
UMA PINTURA PARA DENTRO DE OUTRA PINTURA
(O presente para dentro do futuro, agora...)
Gosto quando uma expressão artística se usa a si própria como objecto criativo, por via de reflexão, crítica ou simples(?) contemplação. Gosto de livros sobre a escrita, de filmes acerca de outros filmes ou sobre cinema e de pinturas que incorporam outra(s) pintura(s). "Las meninas", de Diego Velazquéz, é um exemplo sublime de uma obra absoluta e fascinante que coloca outras pinturas em destaque e, simultaneamente, envoltas num mágico véu de mistério. Nas penumbras do salão palaciano.
Desta vez calhou-me a mim, pela primeira vez, nos caminhos que à mente se abrem e se descobrem quando em processo criativo, fazer sentido que num quadro meu isso sucedesse. Mais do que apenas fazer sentido, depois de visualizado, tornou-se numa ordem imperiosa, à qual não havia volta a dar. A vontade humana sai sempre derrotada em qualquer confronto com os ditames da imaginação e da sua sede cega e compulsiva de concretização.
Portanto, o quadro a fazer, o futuro, é o projecto que estou a desenvolver agora e que, se o conseguir fazer, será uma pintura a óleo, de grandes dimensões, maior do que as que já aqui viram, e de outras que irei colocar mais tarde. Sobre essa pintura em preparação, como certamente entenderão, não revelarei temática nem qualquer outro detalhe relevante até que esteja terminada. A única ponta do véu que levanto tem a ver com o conteúdo desta publicação.
Como o conteúdo, sendo diferente na abordagem conceptual, compartilha com os meus outros trabalhos recentes, um método de composição e de expressão formal, tem algumas exigências. Desta vez devido às circunstâncias específicas de que se rodeia, vejo-me na necessidade de criar, no estúdio, um cenário, a partir do qual pintarei. Nesse cenário será incorporado um quadro de uma "Pietá", que devido ao seu conteúdo simbólico, cumpre uma função importante no conjunto.
Conjugaram-se as dificuldades de obter uma boa reprodução e da necessidade de ter elementos adicionais às pinturas comuns do tema com o facto de eu estar a aproveitar o "interregno" de projectos mais exigentes, fazendo algumas experiências com pastéis. Assim, decidi eu próprio fazer a "Pietá" para figurar no próximo quadro a óleo. Portanto irei pintar o mesmo quadro duas vezes. É uma sensação estranha.
Disse no princípio deste texto, que gosto de arte que se expressa acerca da sua essência. Há casos em que imagens figuram dentro de imagens, até ao infinito, como se fossem "Matrioskas" transparentes em que o ínfimo só é limitado pelos limites de quem cria e de quem vê e/ou imagina. É um conceito interessante, se bem usado. Este facto de estar a pintar para algo que vou fazer, sendo diferente, provoca-me, curiosamente, uma sensação paralela, mas quase a tocar na que acabo de referir.
Decidi basear esta "Pietá" (a haver outra, mais tarde, será bem diferente) numa obra renascentista sobre o tema, na qual incorporaria os elementos que imaginei. Dessa forma, aproveitei para fazer uma homenagem a um pintor que admiro. Como disse este assunto fez-me pensar em Velázquez e talvez por isso escolhi um outro espanhol, um pouco anterior (morreu 13 anos antes de Velázquez nascer) por cujo trabalho tenho grande apreço. Falo de Luis de Morales. Este pintor de temática religiosa, repetiu a pintura de "Pietás", deixando-nos diversas abordagens próximas, em planos diversos, enquadramentos e aproximações ao tema variados, sendo por isso ele próprio um mestre da repetição. A escolha ideal para uma pintura a repetir.
Para fechar esta publicação não resisto a deixar aqui um poema, que nos dias em que fiz esta pintura me vinha à mente recorrentemente. É uma oportunidade de referir aqui um poeta de excepção e poesia grande.
"stabat mater
sim, a verdade é esta, temos todos as nossas
razões, e às vezes temos mesmo razão, e morre
muita gente por elas, e nós vamos agindo e dizendo
de um lado ou do outro, e entretanto
os calvários proliferam como brinquedos obscenos
em que uma mulher segura o filho
morto nos seus braços, se
morrem os meninos de sua mãe, se morrem como calha
nos braços seja de quem for ou de ninguém, eles ainda
podem morrer nos de quem os trouxe no ventre.
Na escuridão que lhes invade o sangue
nem sentem o lugar em que se encontram,
nem, enrolados no arame farpado da agonia,
têm já memória de quando eram pequenos
e uma mulher sorria para eles e os encostava ao peito.
É quando cada mãe é uma noite com todo o peso do mundo,
já nem sequer dona das entranhas
e não sabe o que sejam consolação, perdão,
nem prece, nem esperança, o seu regaço
torna-se um soluço sem música, como quem vomita o próprio ser.
stabat mater dolorosa."
Vasco Graça Moura